quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Memórias de um acreano

Obra premiada no I Prêmio Garibaldi Brasil de Literatura



Mais um dia se foi, mais uma noite vem e eu aqui, aos emboleus. Às vezes a solidão chega a cortar mais que navalha afiada. Mesmo estando cercado de pessoas, o tempo parece ter me transformado em um ser invisível, insignificante. Enquanto eu espero a noite cair, me perco nos meus pensamentos. Tudo o que eu queria era fazer o tempo voltar...
Eu nasci na década de 30, no Seringal Universo. Aos oito anos de idade fiquei sem meu pai. Passei a minha meninice na Colocação Copaíba. A minha vida nunca foi fácil, desde cedo comecei a trabalhar para ajudar minha mãe a terminar de criar os meus irmãos.
Parece até um filme em minha mente: relembro da infância, que nem criança direito podia ser - ao invés de brinquedos, enxada; no lugar do lápis e do caderno, uma poronga que me guiava varadouro a dentro rumo ao meu fruto de esperança. Estreei no corte trabalhando de "meia" com o meu cunhado para aprender a lida com a seringueira. Naquela época, cortar seringa e fabricar borracha era o nosso ofício. Quando eu voltava pra casa, não tinha mais ânimo pra nada, chegava com o corpo “muído”.
Em muitas das vezes eu me distraía querendo brincar. Pegava o talo da palha do açaí, inventava um cavalo e saia correndo mata a dentro. Ou então, descia o terçado num pedaço de pau e entalhava uma espingarda; depois, pegava folha de taioba e imaginava que tava atirando numa anta.
Eu não tinha tempo pra mais nada, nem pra estudar. E mesmo se tivesse, teria que andar onze horas de viagem para chegar até o barracão onde tinha alguém que soubesse ler. Hoje em dia fico até revoltado quando vejo os meninos que têm a escola quase no quintal de casa, mas não se interessam pelos estudos. Quisera eu no meu tempo ter uma oportunidade dessas! Tenho certeza que teria aprendido a fazer pelo menos o meu nome, coisa que nunca consegui, apesar das vezes que tentei. É por isso que me chamam de broco, não consegui me “desarnar”.
Aos trinta anos eu me mudei para Tarauacá, mas continuei cortando seringa. Trabalhava os cinco dias da semana e no sábado chegava cedo, tomava um bom banho pra tirar o piché da seringa, juntava uns conto de rés, colocava os panos de bunda numa sacolinha e percorria de quatro a cinco horas de viagem pra cair no forró.
Vixe, como eu dançava! Gostava mesmo era de um xote, um xerém; você precisava ver quando eu atracava na cintura da dama e fazia a saia dela rodar. Bailava a noite toda, ia realmente pra me divertir. Enquanto eu arrastava o pé, acompanhava a música ouvindo o fole da sanfona. Hoje não arrisco mais cantar, nem assobiar consigo! "O que faz a voz sair direito é os dentes e esses eu já perdi todos".
Eu era um moço conquistador, a mulherada se encantava com os meus olhos claros. Só fui me aquietar mesmo quando conheci a mulher da minha vida. A gente não se conheceu em nenhum baile desses, mas a nossa história foi uma festa. Não nos conhecemos jovens, mas a gente tinha muita disposição pra viver.
Nos encontramos num momento difícil, ela tinha acabado de ficar viúva. E ainda por cima, tinha uma reca de menino. Eram doze filhos vivos, quase todos crescidos. E os que ainda faltavam criar nós criamos juntos. Apesar de não ter nenhum filho meu, me esforcei pra ser o melhor pai que uma criança pode ter. Além dos filhos, criei muitos netos, bisnetos...
A família era grande, o trabalho tinha que ser dobrado. E mesmo que os moleques se embrenhassem na mata, cortando seringa e apanhando ouriço de castanha, fico aqui rememorando as vezes que passamos algumas dificuldades. Mas como todo bom “caboco” acreano, eu sempre dava um jeito de superar os problemas. E nisso, a minha velha também era craque, sabia muito bem “dribar” os infortúnios da vida. Mesmo doente, ela se virava feito charuto na boca de bêbado.
Em dias em que eu chegava sem nenhuma caça, o jeito era encher o bucho dos curumins com muita garapa. Ou então, a minha velha fazia um arroz doce danado de bom; uns caldos de caridade; uma jacuba... A gente comia até bunda de tanajura com farinha seca, mas sempre ia dormir com o estômago forrado!
Na década de 80 eu vim pra Rio Branco em busca de melhoria. A família ficou em Tarauacá, esperando que eu conseguisse juntar dinheiro e um lugarzinho pra gente morar. Quando a reca toda chegou em Rio Branco fomos morar numa colônia onde tinha um barraco cedido pelo patrão. Lá, até os pequenos tinham que trabalhar plantando cupuaçu ou cuidando dos gados. Nós sofremos demais nessa colônia! Nunca dava pra juntar dinheiro, pois a gente pegava o pagamento do serviço em mercadoria. Só trabalhava feito doido e nunca que ia pra frente. O jeito foi procurar melhoramento na cidade...
... Apesar de tanta luta nós conseguimos criar todos os filhos. Hoje eles estão ai espalhados pelo mundo. Cada um com sua história, sua família, sua vida pra se preocupar. Em muitas das vezes procuro alguém pra conversar, ou pra pelo menos me ouvir; mas ninguém se interessa pela história de um “matuto vêi”, que venceu tantos obstáculos na vida e hoje a solidão e o silêncio são seus únicos companheiros. Minha velha já foi pra junto de Deus e eu continuo aqui, largado aos emboléus.

Uma homenagem aos queridos avós: Maria do Patrocínio de Oliveira e Luiz Pereira de Evangelista.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



Hoje o Blog faz um ano na rede e quero compartilhar este bolo com todos @s blogueir@s e visitantes.
Apesar do ritmo das postagens ter diminuído, continuo aqui, firme e forte.

Um abraço fraterno e que o seu fim de semana seja excelente!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Refletindo...


Eu posso contribuir apenas com uma gota de água para o oceano, mas com a minha gota ele jamais será o mesmo.
Madre Teresa de Calcutá


Estar preocupado é como estar em uma cadeira de balanço: tem-se algo a fazer, mas não se chega a lado nenhum.
Evan Esar


O fracasso é a oportunidade de começar tudo de novo – inteligentemente.
Henry Ford


A pessoa de sucesso não é aquela que não possui problemas, mas sim aquela que aprendeu a enfrentá-los e a resolvê-los.
Dirk Wolter



A única saída do fundo do poço é para cima. Mas, mesmo que não esteja no fundo, você deve procurar continuar subindo, sempre.
Dirk Wolter


A desconfiança é o farol que guia o prudente.
William Shakespeare


O fracasso descobre o gênio; o sucesso esconde-o.
Horácio



Abraço fraterno.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Todo dia é dia do amigo!




quinta-feira, 9 de julho de 2009

Desabafo de um cão


Publicado no livro Contos e Poesias - Editora CBJE

Ultimamente eu tenho andado tão sozinho... Estou sujo e a minha casinha também. Fico horas sem comer e beber. Abano o rabinho, mas ninguém me dá atenção; parece até que fiquei invisível.

Quando eu era mais novo, era a alegria da casa. Todos adoravam ficar comigo. Às vezes, eu ficava tão cansado, mas disfarçava o cansaço e fazia o que podia para divertir a minha menina.

Relembro com saudades dos nossos momentos felizes. Eu andava sempre limpo e bem alimentado. Ela dizia que eu era seu único e eterno amigo. Não me dividia com mais ninguém.

O que ela gostava mesmo era de vestir umas roupas esquisitas em mim e de pentear meus pêlos. Eu não gostava muito, ficava parecendo uma boneca. E ainda, coçava demais; eu só sossegava quando conseguia arrancar toda aquela roupa.

Eu não gostava de ficar só em casa, mas entendia que os meus donos tinham que trabalhar e a minha menina tinha que estudar. No momento em que eles voltavam, eu ia recebê-los no portão. Pulava e latia muito; eles me colocavam nos braços e diziam que estavam morrendo de saudades. Aquilo pra mim era a melhor hora do dia. Eu me sentia tão especial...

O tempo foi passando, eu cresci; ela também cresceu. Um dia desses, pulei em cima dela, esperando que saísse comigo no colo e me levasse para brincar. Ao invés disso, ganhei a maior bronca:
- Cachorro louco! Sai daqui pulguento, não quero que suje a minha roupa.
Eu apenas obedeci. Saí de perto dela pra não apanhar.
Sabe, eu não entendo esses humanos. Eles são uns bichos tão estranhos!

Às vezes, eu tenho vontade de ir embora, sair pelo mundo afora à procura de um novo dono. Mas tenho medo do que eu vou encontrar. O mundo que eu conheço é o quintal aqui de casa. E afinal, será que a história não iria se repetir? Eu poderia conhecer alguém pra cuidar de mim e me amar, mas logo ia se cansar também. Acho que humano é tudo igual... Pensa que a gente é descartável!

 

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem sou eu?

Quem sou eu?
Ajude-me a responder!
Eu sou um pássaro sem asas
Um sonho em corpo de menina
A realidade na face da mulher
Uma amiga que conforta
Uma professora que aprende
Uma aluna que ensina
Quem sou eu?
Ajude-me a decifrar!
Eu sou a água que molha a terra
A lágrima que sufoca o sorriso
A luz que apaga a escuridão
A melodia que ecoa
A paz que acalma o coração
Quem sou eu?
Eu sou a sensibilidade à flor da pele
As lavas de um vulcão
Eu sou o grito do silêncio
E a companheira da solidão
Quem sou eu?
Ainda não descobriste?
Eu sou tudo e sou nada
Eu sou o que você olha e não enxerga
És capaz de responder agora?
Quem sou eu?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Selo Amizade e Informação


Recebi este selo do amigo Álvaro Oliveira do blog www.alvarooliveira-poesia.blogspot.com
e quero compartilhar com dez outros(as) amigos(as) bloqueiros(as)

Regras para quem recebe o selo:

1 - Exibir a imagem
2 - Postar o Link do blog que o premiou
3 - Publicar regras
4 - Indicar 10 blogs para receber o selo
5 - Avisar os blogs nomeados

Lista dos premiados:

1. http://docetere7aosabordeventosemars.blogspot.com/
2. http://ronaldofranco.blogspot.com/
3. http://schsonia.blogspot.com/
4. http://cronicasdeluziania.blogspot.com/
5. http://libertinoescreve.blogspot.com/
6. http://ramalyon.blogspot.com/
7. http://deliriosdasborboletas.blogspot.com/
8. http://espejodemialma.blogspot.com/
9. http://rodrigoapbb86.blogspot.com/
10. http://miluzcintila.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Palavras...

... Às vezes são espadas afiadas
flechas envenenadas
que ferem a alma
e fazem o coração sangrar
Por isso, pense duas vezes
antes de falar.





Imagens: agência Saatchi & Saatchi de Singapura (para campanha da Aware Helpline)

domingo, 5 de abril de 2009

Abraço fraterno.

Imagem: http://www.gifsecia.com.br/?conteudo=0&listaCat=1&id_catalogo=267&pglcat=2

sábado, 14 de março de 2009


quinta-feira, 12 de março de 2009

Tormento

Maria Liberdade Oliveira dos Santos

Quando você passa
Parece que faz de pirraça
Só para me maltratar
Quando te encontro
As palavras desaparecem
Você brinca com o meu coração
Joga charme e depois vai embora
Viver assim é um tormento
Em meus devaneios
Imagino que sou tua
E que me beija com ardor
Me abraça com jeitinho
E loucamente fazemos amor
Viajo nessa fantasia
Sonhando em um dia realizar
Então vou te sufocar de carinho
Pra você nunca mais me esnobar.


(.../.../2000)

Imagem: http://www.mensagensmagicas.com/

sábado, 7 de março de 2009

Insegurança

Maria Liberdade Oliveira dos Santos





Eu tenho medo de você não lembrar mais de mim
Esquecer os momentos que compartilhamos
Esquecer o sabor do meu beijo
O cheiro do meu corpo
O toque das minhas mãos
Os meus abraços
O meu sorriso
O meu choro...
Não quero ser apenas o teu passado
Quero ser o teu futuro presente
E o presente futuro
A insegurança domina o meu ser
Tenho medo do medo que sinto
Eu tenho medo de acordar e
Não ouvir o teu “bom dia”
Medo de mergulhar no vazio da solidão
Definhando a cada dia
Sem o teu olhar que aquece o meu coração...







domingo, 8 de fevereiro de 2009

Súplica

Maria Liberdade Oliveira dos Santos

Não vá embora, eu suplico
Sozinha aqui eu não fico
Preciso da tua companhia
A dor é humilhante, causa agonia

Quantas vezes você também errou!
Eu sempre quis recomeçar
Mas até agora você não me perdoou
Fazendo o meu coração despedaçar

Não sufoque o amor dentro do peito
O que passou não tem mais jeito
Para o meu sofrimento, só você tem a cura
O teu desprezo é o passaporte para a minha loucura



Imagem: http://www.glimboo.com/

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Olha para mim

Maria Liberdade Oliveira dos Santos







Olha para mim
Devora-me
Tira a minha roupa
Deixa-me completamente desnuda
Afoga-me nas águas cristalinas
Do mar dos teus olhos
Embriaga-me com a tua sedução
Faz de mim o que quiseres
Ama-me no chão
Feito louca desvairada
Olha para mim
Desvenda os meus segredos
Realiza as minhas fantasias
Olha para mim
E deixa-me cada vez mais apaixonada
O teu olhar me faz suspirar
Penetra profundo em meu ser
Faz-me delirar
Ir às estrelas
O teu olhar me consome
Olhar de menino dengoso
Sou tua
Sacia a tua fome
Olha para mim
Enxergue a minha alma
Ouça o meu grito silencioso
Que clama a tua atenção
Olha para mim
É teu o meu coração
Incendeia-me com a luz do teu olhar
Enche-me de prazer
Prende-me em tua teia de desejos
Faz-me viajar
Tendo como passaporte os teus beijos
Olha para mim
E enxerga a menina que virou mulher
Faz de mim a tua canção
A tua poesia
O teu vinho inebriante
A perfeita amante
O teu céu
O teu luar
Olha para mim
Estou pronta para te amar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se eu pudesse voltar no tempo

Maria Liberdade Oliveira dos Santos







Ontem eu senti vontade de abraçá-lo
Dizer que o amava
Quis chamá-lo para sair
Ontem eu queria conversar
Falar e te ouvir
Eu pretendia dizer o quanto você é especial
Mas acabei deixando para depois
O tempo passa tão rápido
A vida é uma correria
E foi na correria da vida que eu te perdi
A linha tênue se rompeu
As luzes se apagaram
Você adormeceu
O pesadelo do arrependimento me consome
Quantas oportunidades desperdiçadas!
Agora é tarde demais
Seus olhos não olham mais para mim
Tuas mãos estão rijas sobre o peito
Já não posso mais sentir a tua respiração
Se eu pudesse voltar no tempo
Seria mais atencioso
Aproveitaria cada segundo ao teu lado
Depois que você partiu
A letargia tomou conta do meu ser
Nada mais posso fazer
Além de recordar os nossos momentos
Sentir a tua ausência
E desejar a tua presença
Se eu pudesse voltar no tempo
Congelaria o teu sorriso
O teu abraço
O teu aperto de mão
Congelaria a vida que pulsava em ti
Ah, se eu pudesse voltar no tempo!


Imagens: Google